terça-feira, 12 de setembro de 2017

CRU

Pra ser poeta precisa viver a intensidade dos acontecimentos. Não se nasce poeta, se vive poeta. Em cada esquina a poesia está ali escondida, esperando ser encontrada. É preciso descobrir os véus, dos acasos. Na poesia mora o risco, de se descortinar do receio, sentir ela rasgar tua psicose por inteiro.

POESIA DO AMOR REAL

É dessa vida que pertencem meus mais intensos beijos. É dessa vida que o toque de dois corpos se põe em cima da mesa para serem degustados. É dessa vida a intensidade de um encontro, fictício e real, inventados cada segundo como se o terceiro da história fosse esse amor inventado. É dessa vida a poesia visual que é o seu corpo. É dessa vida o buraco do seu peito que eu insisto em repousar. É dessa vida teu cheiro misturado com o meu. É dessa vida tuas palavras caladas confundidas com meu excesso. É dessa vida tuas ações, as belas, as livres. Homem que ri com os olhos. É nessa vida que passarei escrevendo no teu corpo e no meu a poesia do encontro. Embriagada acordo no teu paladar, tem gosto de vida. Esse terceiro anarquista, esse terceiro ainda me cura, desse ímpeto maldito de querer colocar em palavras o que não tem palavra. Em ato esse terceiro incendeia o palito de fósforo que você deixou em mim.

Notícias

Recentemente tenho dado muitas notícias, envio cartas a mim mesma. Por vezes ando pelas ruas e me pergunto onde meus passos querem chegar. São tantos acontecimentos que fico inebriada neles. As vezes me sinto uma espécie de bruxa, tenho um farol dentro do meu peito que me diz que o que eu escolher dará certo. Tudo é uma questão de perspectiva. E não guardo na bolsa muitas queixas, porque a vida sabe ser muito generosa. Carrego um patuá chamado Sorte. Acaso. Conexão. Até onde quero ir? Tenho problemas em ter que escolher. Minha mãe sempre disse que não tenho limites. Ela tem razão. Isso eu deixo como tarefa da vida. Ir impondo o tempo das coisas. Eu vou no fluxo, os meus sentimentos não tem bordas, pautas, nem margens. Extrapolo qualquer demarcação. E não é que há quem se incomode? Vai entender, mente do outro é um treco estranho, sem sentido a falta de coragem que as pessoas tem para lidar com o novo, é tão mais fácil habitar o comum. O comum não me atrai, É difícil, bancar as minhas escolhas, mas as banco, tudo que opto é o mais difícil, acho que sou tentada a uma dificuldade. Saudade de um tempo. Um tempo de repouso, em que gastava mais tempo com meus pensamentos e leituras do que com o outro. Sempre gostei da solidão. Solidão e natureza se aproximam da minha história. Solidão não é esvaziamento, é encontro consigo mesmo. As coisas pra mim já nasceram invertidas. Sou filha de pais subversivos. Tenho sorte. Já nasci do ponto até onde eles chegaram. Nome não se escolhe, nome se recebe. Lugar se trilha e constrói. Tenho construído, minha narrativa, meu lugar e a possibilidade de um caminho. Sempre fui corajosa, até para quebrar a cara e começar tudo de novo. As pessoas corajosas me causam. É delas que eu gosto. Elas me arrepiam. Me excitam. Tem tempo que não me encontro com minha solidão, perdi um lugar, engraçado essa coisa de perder um lugar, os lugares são subjetivos e não físicos, mas como nasci invertida, perdi um lugar físico que levou junto o meu singular. Havia tanta coisa ali naquele solo. Eu sinto falta de acordar com o barulho da natureza e com novos baianos tocando. Sinto falta de andar descalça, de sentir cheiro de ar puro, de tomar chá de capim limão, de ver as luzes do dia em vários ângulos, de ter uma conexão com os rios como se eles conversassem comigo. Eu sinto falta, quem preencherá essa falta? Será por isso esse desejo louco e incessante de estar sempre ativa? Vai saber... Sempre fui hiperativa. Não deve ser isso. Deve ser  essa pulsão dentro de mim que precisa de intensidade. Tem horas que não quero saber de nada, nem de ninguém. As vezes é bom se esquecer dos outros e de si mesmo, só por alguns segundos. O próximo instante já se instala com demandas, as maiores demandas que tenho não são minhas. Que escolha louca essa de ser cuidador do outro. Que pretensão nos colocarmos como objeto pro cuidado do outro. É preciso ser honesto quando se banca uma escolha dessa. É preciso ser total. Vai doer, mas vai ser visceral. Escolheria novamente. Escutando o outro, crio brechas para poder escutar a forasteira que há em mim. Sigo faltando, flanando e reverberando.

VOCÊ ME LÊ?

Me sinto nua na tua presença
Como se a cada vírgula que eu desse
Você me localizasse em cada palavra

Meu corpo é uma máquina de produzir intensidade
Como capturar o desejo que me falta?
Deixe comigo esse olhar
Que descarto na primeira trepada


Uma tesoura
É isso que os homens querem
Para castrar meus ímpetos
Dessa moral derramada de seus olhos

Quer me comer
Mas o seu tamanho se compara
A pequenez de um escorpião
Deguste meus sinais
Come com os olhos
Já que não sustenta comer
Com as palavras


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Acontecimento


Bate na minha cara
Com essas palavras
Não ditas
E que eu tomo
Com sede
Monossilábica

Pintei em um quadro
Minha expressão
Diante
Da tua impressão
Não seco

Entorno
De paixão

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A ordem da paixão



Nós nos apaixonamos pelos significantes,  não pelos significados. O que seriam os significantes senão tudo aquilo que vem a oferecer uma leitura do homem, que marcam seu corpo, que deixam impressões, às vezes rasgadas por aí..  É uma cadeia, não uma prisão, é uma narrativa em construção, é uma estrada, que por hora abandonamos, mas depois voltamos a revisitá-la, com novas lanternas. É o desbravador de uma nova linguagem, é o inaugurador de um mundo, apresento-lhes: A bússola do desejo.

A paixão é consensual, está ali um eu nosso, oculto e a mar aberto. Significantes e paixão se incluem em um contexto, do que temporalmente se está sendo, do que está em jogo, fadado a nos colocar a se encontrar: com algo do nosso.







quarta-feira, 17 de julho de 2013

segunda-feira, 27 de maio de 2013

CANTIGA DE AMIGO

Menino de serra
de raro calor,
que abraço te encerra
nos seios do amor?

Clareira e doçura,
a moça solar
aloja sua lua
nos braços do mar.

Tão forte se enlaça
no olhar tal visão,
rebrilho essa graça
em voz e violão.

O golpe e o machado,
o lobo e o uivado,
Amor quando amado
é força ao quadrado.



terça-feira, 21 de maio de 2013

RE - CORRENTE

Sua língua
Sussurra minha,
Desemboca e a soca
Em tom maior.

O teu sexo cheira familiar, 
Germina em minha insanidade, 
Suplico seu alimento, seus frutos grandes e doces
Dura horas, dou duro

Aguadeiro,
Jaz nascente em boca gozo fluente...



                                                                                                                                  



segunda-feira, 10 de dezembro de 2012


Alto mar
Alto lá,
Pesco ressaca, morada do seu olhar
Feito de lua 
Não cessa o renovar..                   








terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Fevereiro

Quando entra fevereiro
Ergo-te o carnaval
Mundo que mora em mim
Habitante tão carnal


No altar da lua cheia
A noite se deita
Clareio-te o dia,
Manhã Prosa
Aurora Poesia.


Máscaras urbanas,
E apenas uma nudez clandestina,


Do tempo que congelei.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O andar do bêbado

Atravessou a rua que o atravessava
Em passos largos, cruzava seu passado


O céu sob a cabeça
O legado sob os pés


Sua pureza era sadia
Orquestrava melancolia; 
Seu ocaso.


Mal disse os olhos uma gota
De saudade, de conhaque


Em seu ventre paria o abismo
Desse solo não pertencente


O finito não vingou
O pressagio sustentou:


Ai moram todos nossos demônios.





segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Imerso legado


E quando ele se foi                                                                        
Branco se fez o papel
Destecido os  horizontes daquela mulher
Da janela avistou murchas as flores
O horizonte em desencanto
Da chaminé somente as cinzas
O vazio transbordou
Tudo que cala aquele opaco olhar


Bebeu mais um gole
E no deserto encontrou torcidas gotas
A tempestade inundou a lucidez rasa


Num trago inspirou toda fantasia que lhe aspirava
Para iludir toda a ilusão que lhe restava
Galgando o legado, esse, de sua ressaca
O alimentou, como se o próprio intitulasse sua calmaria
E  Acreditou dar vida
Há todo imenso que dormia..






Por,
 Clara Lobo e Luizinho Alves.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

"Escreve-se sempre para dar a vida, para liberar a vida aí onde ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga"


Deleuze

domingo, 18 de setembro de 2011

Há Menos Trezentos e Sessenta Graus

(...)

O minuto,
Passa,
O ponteiro roda,
O mundo cíclico,

O inverso,
Converte,
O tempo transforma,
O mundo muda ordem,
É o tempo,
Invalidade,

Sem prazo.

(...)



Clara Lobo

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Grãos

A poesia não pode esperar
A poesia não pode
A poesia não
A poesia
A
.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Livre em Condição

Pássaros no céu,                                     
Homens na terra,

Mente no céu,
Pés na terra,

Pássaros em vôo vivem no solo,
Homens na terra vivem aéreos,

A gente pensa ter liberdade pra chegar aonde queremos,
A gente se prende em liberdades todo o tempo,

Vivemos em mito,
Vivemos entre a garganta e o grito,

É tempo do quase,
É tempo do dito,

Somos nossos autores,
Condicionalmente,
Veredicto.




Clara Lobo

sábado, 14 de maio de 2011

IN VERSUS

De dia,
Faz dia,
De noite,
Faz noite,
De tarde,
Faz metade,
Do Infinito que nos resta,


Mistério.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Boca Breve

Não sabes, Clara, que pena
eu teria se — morena
tu fosses em vez de clara!                         Talvez... quem sabe... não digo...
mas refletindo comigo
talvez nem tanto te amara!

A tua cor é mimosa,
brilha mais da face a rosa
tem mais graça a boca breve.
O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!

A morena é predileta,
mas a clara é do poeta:
assim se pintam arcanjos.
Qualquer, encantos encerra,
mas a morena é da terra
enquanto a clara é dos anjos!

Mulher morena é ardente:
prende o amante demente
nos fios do seu cabelo;
— A clara é sempre mais fria,
mas dá-me licença um dia
que eu vou arder no teu gelo!

A cor morena é bonita,
mas nada, nada te imita
nem mesmo sequer de leve.
— O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!


Casimiro de Abreu 

sexta-feira, 29 de abril de 2011

As margens da vida

Já nasci atrasada
Perco os compassos dos meus passos
E no compasso dessa vida eu ando perdida
A deriva de mim, derivo do que busco
E não do que encontro
Incessante solidão
Medida para minha contradição.


O que em mim mais se contradiz?
Bússola
Tatuo no corpo razão
Mas afeto na vida e sou afetada 
A margem do rio existe um outro lado,
A margem de mim mesma.


A deriva assisto o roteiro da minha vida
Passar em preto e branco
De fora sem protagonizar,
Deixando correr não só a vida
Deixo livre o tempo..


Há tempo
Não me pertenço.