segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Viés

Ás vezes
Saio da análise
Tomo o caminho 
Mais longo
Ao invés
Do mais curto

Ás vezes
Preciso de mais ruas
Pra me espaçar

Três coisas sobre ele

Daquele encontro
Duas ou três coisas
Eu diria
Uma delas
Substantivo primeiro
Seu cheiro
Ele não saberia que cheiro não se compra em perfumaria
Nem se pega por empréstimo de alguém
Cheiro é sexo
É carne que não se mastiga
É um gosto que finca na saliva
Da segunda ele não desconfia
Um deslize
Demarcar território em corpo impreciso
Ao tentar capturar
A altitude do voo
À dimensão da perda
Ele insistia em determinar
Lá pelas tantas
Eis a terceira
Me serviu uma fatia de Ato falho
Uma queda no meu olhar
O pássaro de asa amputada

Me disse: "as certezas me pescam"
E eu fiz
Uma dança
Em homenagem ao desencontro



Devir criança

Há momentos da vida
Em que nos roubam a poesia
Vamos perdendo a simplicidade

Casas grandes
Lugares sociais
Idealismos superficiais

Do destino da vida
 Só teletransportamos
Nossas crianças animais

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Despertar

As flores 
Inauguram em mim
O desejo de desabrochamento

No florescer da vida
Me admire
Me sinta
Me cheire

Não arranque minhas pétalas
Em meus espinhos
Sustento minhas malícias






BARBA

Sua voz
Provoca ruídos em meus ouvidos
Que só se atentam
Pro que a palavra esconde

Faça uma visita ao meu corpo
Quero o seu gosto
Misturado com meu cheiro

Quero sussurado 
O toque que tange
O meu grito mais desmedido

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Na tessitura do querer
Repousam meus anseios

Devaneio esse estrangeiro

Que se lança peito aberto
Pra montanha russa do viver

A ficção
Transfigura o olho que revê

O inconsciente
Repousar para além do que se vê







quarta-feira, 27 de setembro de 2017

SANGUE

A cada período fértil
Me convenço do incapturável desejo
Que há no fluxo dos acontecimentos

A MULHER É O REAL

Um batom vermelho
Remete a boca
De uma mulher

Uma mulher
Um vinho
Um olhar

O semblante de uma mulher
É como um abismo
 
Eu posso ver
Mas não posso tocar

Pássaros

O artista
Há de ser alguém alegre
Ou triste
Há de vestir-se dos extremos
Para dar oxigênio
A uma sociedade 
Que não se tornou voar

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Protesto

Engole essa língua
Que te ensinou a soletrar preconceitos
Se engasgue dessa arrogância intelectual
Disfarçada de Igualdade

Medo eu tenho dessa burguesia folclórica
Que desfila achismos 
Que se veste de vanguarda
Mas na prática 
Levanta bandeira:
 Por uma Sexualidade Binária

Eu tenho nojo de disfarces
Se apresente como é
Porque na hora que o mata a mata começar

Eu quero ver
Se é o teu corpo 
Que protestará




Gaia Guerrilha

Descolonizar os corpos
Que repousam sobre os nossos
Que pulsam nosso medo

Estupram nossos ímpetos
De tornar universal  uma coisa chamada desejo

Que a poesia selvagem
Nos salve desse binarismo
Escravo da linguagem
Que nos engaveta 
Pro massacre

Que ela possa nos servir
Como uma flecha
Que grita 
Que resiste
Que milita
Que vive

Que acerta o alvo
Da diferença





Anunciação

As palavras não tem véu
São como são
As pintamos do nosso sentido
As subtraímos na gramática
Transbordam ao tocá-las
Despida palavra,
A corpo nu
 Te inscrevo


domingo, 24 de setembro de 2017

Lacuna

Minha bolsa de expectativas
Anda cheia de faltas
A cada esquina
Desencontros me passeiam
Quero uma agenda para marcar um encontro comigo mesma
Tirar a limpo o que me toca e eu não canto
A pauta será tornar literal o indizível
Entregar ao sonoro o vívido
Fazer das palavras que me fogem uma espécie de hino

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

TELEFONE

Sua voz
Sussurra um antigo som que ecoa
No meu despertar

Um telefone sem fio
Modos diferentes de tratar
Uma linguagem em comum
Comunhão particular

Como lidar
Com o que não cabe falar
Com aquilo que é.. 
Pra já..
Com o que não pode esperar

Com o que vem alarmar
Que aquilo que contêm vida
Não pode tardar



MARÍTMO

Um barco
Um mar
Não sei se vou
Ou se fico

Uma lembrança
Um oceano
Há em mim o que permanece
Outro de mim que se aprofunda

Um eu
Um continente
Barcos de papel a flutuar
É de ancorar desejos
O mergulhar
Pra se encontrar

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Volta ao sol

O ano passa sobre mim
Eu passo sobre ele
Esse tal de Ano novo 
Não me comanda nada
Pra um eu nascer
Abro as Ancas
Gemo
Faço parir:
Uma data fecundada

É de ser

Escrevo com os punhos
Debruço-me sobre o vazio
E o imenso 
Dos verbos sentidos 
Conjugando
O que fui
Existo no imprevisível
 

Oceano

Como tornar palavra
Aquilo que escapa?
É preciso metaforizar o indizível
Qual é o destino
 Dos olhares que não se chocaram?

No paradoxo mora
A linguagem inconsciente da vida
O impróprio da existência
É o que de mais próprio podemos nos encontrar
Lançar de conchas
Sobre o mar

Tic Tac

Pelo meu coração circulam
Os ponteiros do relógio
Temporalizando sentimentos invisíveis
Tatuam em minha carne
Memórias que não tive
Mas que insistem em pulsar
Sobre aquilo
Que em mim 
Insiste

Anonimato

Eu, pseudônimo de mim, você é?
É por incidência que eu sou eu
Eu sou o acaso do que está dado
Pertenço a um mundo que me foi enraizado
Mas que não me deu mais notícias
Intrínseco martelo
 Martela-me os compassos da vida
Para que ciclo vou, se o que se interrompeu ultrapassa o meu eu?
Busco respostas em meu inconsciente
Pra sair da decrescente
Os meus tatuadores simbolizam melhor meu imaginário do que eu
Para que destino vou se eles subscrevem meu consciente com mais formas do que eu?
Entro em convulsão com o mundo
Fico aberta a consequências
Então pergunto do meu submundo à minha consciência:
Responderei minha anônima presença?

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Vir a ser

Os transformistas tem a fúria
De subverter
O que os cristaliza
A um ideal
De cunho moralista

É preciso mais
Transbordamento
No lidar com um mundo
Que tole pertencimentos