terça-feira, 5 de maio de 2020

As Poetas


Um adiamento antecede essa escrita
Há em minhas mãos uma pergunta
Que sustenta um fio invisível
Em contraste com essa voz
Trêmula

A cada palavra usada
Ousamos
Nascer em uma sociedade
Patriarca
Pátria
Pai
Que Cai

Deixei no pretérito
O temor pelas próximas linhas
E por tudo que vinha a se impor sobre esse corpo
Mulher

Essa escrita prenuncia um aborto
Paterno
Abortamos todas as vozes masculinas
Que nunca nos pariram
Ao fazermos de nós mesmas
Polifonias

Sobre o silêncio de uma dívida
Abro meu timbre
Para o encontro com o mundo
Me  entrecruzo  a outras vozes
Que ecoam
Sob o peito

Estética da Voz
E das mulheres
Vem a ser
O meu nome

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Escoar


Os pensamentos vão e vem
Os dias correm sem parar
Meus sentimentos saltam por entre os dedos
Não consigo encontrar a palavra
Ela anda perdida em mim
Ela anda
Desliza pelo meu corpo
Tenho gosto por palavra escorrida
Palavra escorrida é palavra viva
Gosto de palavra fora da caixa
Aprendo com elas
Tenho aprendido a desprender
Razão é palavra asfixiada
Palavra em voo
É palavra líquida

sexta-feira, 24 de abril de 2020

É TEMPO



O abril silencioso
Despedaça suas pétalas
Para aqueles que amam
Os desejos foram eternamente adiados

As memórias caem
Como aquele corpo
Que cai

Não saberemos até quando
Nos sentiremos endividados
Com tudo aquilo que bate a nossa porta
E não permitimos
Que nos faça tocar

É o tempo
Em que estamos à procura
Do tempo
Perdido

As ruas ainda estão sem saída
Para a infância dos nossos maiores sonhos

Que lugar dar aquilo que não tem cabimento?
Nossos corpos foram rompidos 
Ao encontro

E tudo aquilo
Que por muito
Acreditamos serem asas
Nos apartou
De sobrevoarmos

Em bando

AS MINHAS MORADAS



Os dias caem cálidos
Há em meu peito um certo vigor
Que vem dando voz a tudo que dormia
Em um sono profundo
Que não mais se cala

Os dias acordam sempre iguais
Mas, não sou mais a mesma
Os desejos estão pulsando
Como peixes – a mar – aberto

Tirei os sonhos da cama
Eles agora estão comigo
Aonde quer que eu vá  
Estão por todos os cômodos
E por falar em casa
Escrever é a minha maior entrada

Uma máquina
MULHER
De escrever


terça-feira, 7 de abril de 2020

UM RIO QUE APOSSOU EM MIM

Sou feita de um Rio
Que perdi

Esse Rio
Passeava sobre meus cabelos
Compunha meu corpo

Cresci sob a potência
Do Rio
Inundando
Seu canto
Turvo

Esse Rio
Ainda dói em mim

Por muito
O Rio
Operou
A escuta
Das águas
Que falam
Aos nossos tambores
De ardor
De amor

O Rio seguiu
Afinando
Cada corda
Cada tom
Do desejo

Esse Rio
Ainda corre em mim


Feito redemoinho
Que retorna
À casa
Essa
Das pulsões

domingo, 8 de março de 2020

A BATIDA


Bate
Bate a direção
Nesse poste
Do pensar rígido
Dilacera

Bate
Bate o tambor
Com emoção
Na ascenção
Ancestral
Revivo


Bate
Bate na porta
Dos fundos
Onde mora
Tudo aquilo
Que excluímos
Respiro

Bate
Bate o pé no chão
Em contradição
À tudo aquilo
Que não nos pertence mais
Extingo

Bate
Bate o sino
Pequenino
Da masculinidade
Movediça
Achismos


Bate
Bate mais forte
Bate na minha fantasia
Quando eu pedir
Para que seja
Meu corpo

RAIO


O mar
O barco
O veleiro

A bússola
A direção
O vazio

O grupo
O eu
Que revolta

Um dia sem escrever
Um enterro
Sem corpo

RECEITA PARA SE TRITURAR


A palavra dá nome
A palavra dá
Dão nome à palavra

Aos pequenos cortes
A palavra se fermenta
A palavra se serve
De línguas mortais
A palavra se compartilha

A palavra subtrai
A emoção
A imagem perdida
A memória velada

O ato palavra
A palavra ato
De não saber
Onde caber
Imenso

Abri um livro de receitas caseiras
Encontrei formas antigas
Rasguei as páginas amareladas
Depois as costurei
Ficaram tortas

As mais amassadas
Esmagadas
Desprestigiadas

Pus ao forno
Para encontrar
O cabimento

Dar as palavras
O sentido
Que ao meu viver
Aquecem

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Cicatrizes


Quando nasci de verdade, nunca enderecei essa escrita a alguém: Sou da família de esquecimentos. Mulheres, deslembravam os lugares. Robustezas. Não gozar de sua época. Histórias vívidas, para o futuro. Para gerações, para os porvires. Meu corpo se transporta para o verde, para a imensidão de um outro tempo. Um lugar dado. Rio, mata, silêncio. A quebradeira de água. O corpo seguindo o rio, o rio formando o corpo. Marcas constituintes de um corpo que tudo se dá. Entorna. Não conforma. A liberdade em se narrar já veio autorizada. A presença de uma avó muitas vezes subverte. De um gesto que introduz, legados. Ainda trago na memória um afeto livro. Os símbolos, que se inscrevem entre os corpos. Os olhares, as despedidas. O que nunca morre. O que vive em ato. As crianças são correntezas vívidas. Só correm com o que toca. A travessia da ponte. Janela aberta de mundo, desbravar enchentes, nadar entre pedras. Marcar os pés nas areias é imprimir sem se perpetuar. Afirmar a cada vez, o tamanho dos passos. Na roda o pulo mais alto é aquele que pulsa. Os pés são molas que a gravidade convida a se lançar. O taxamento a um corpo hiperativo apenas urge como uma série no mar; os desejos afogam ou emergem. Essa é sua metáfora. A batida do tempo convida os cabelos a dançarem com o ar. Vai e vem. Eis o tornado, tornar-se um corpo outro que só queria ser umbigo. Há um cordão em nós que não se corta. Ele sobrevoa. Para enxergar o que deixou e o que o torna pássaro.  As heranças são como pés, que caminham por si, sempre partindo de algum lugar. De tudo que uma memória poderia apagar, é do vívido a marca de um corpo que tudo faz incorporar.











quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

SELVAGEM

Na mata correm
Outras leis
O desejo é imoral


Uma emoção
De Eu
Irracional

Experimentar Ser bicho
Com eles liberar
Tais instintos
Não castrados em pulsar
O que em nós é vívido




terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Máquina
Sujeito
Concreto

Vento de poeira negra
Um pensamento invisível
Marginal voo de superfície

Desejo cimento
Caminhar Cinza
Um corpo cor de sangue
A cidade é partida

Mundo venta
Te quero pássaro